"Deus se arrepende?"
Com essa pergunta um jovenzinho me interrompeu um tanto abruptamente. Acho que alguém tinha dito para ele "Vai fazer esta pergunta para o Marson", e ele veio mesmo. Estava indo na direção do salão de cultos da igreja que frequentava, era domingo, fim de tarde, e minha cabeça estava em outro lugar. Demorei um pouco para sintonizar.
Lembro-me vagamente de ter sentido irritação com a pergunta, mais exatamente com o tom da pergunta. Parecia um jovenzinho querendo fazer uma pergunta difícil para um adulto só para ver o cara numa saia justa.
Interrompido nas minhas divagações de corredor de igreja, levemente irritado com o olhar mezzo desafiador, eu logo devolvi. "Ele se arrepende sim. Caso contrário, nenhum de nós estaria vivo hoje. Ainda bem".
Fiz menção de continuar andando, já que foi o perguntador quem ficou meio sem ação. Pela cara que fez, ele não esperava esta resposta. Parecia decepcionado com minha atitude blasé diante de um enigma do universo, como se aquilo não fosse nada muito importante. Continuei andando, assisti o culto e não pensei mais no assunto.
"Mas... quer dizer que Deus se arrepende?"
Agora a história era outra. Na sala umas quinze pessoas, todas interessadas em aprender sobre 1Samuel, um livro histórico que narra a transição do período de líderes esparsos em Israel para a instituição da monarquia. Eu tinha três horas e meia para cobrir este livro cheio de histórias instigantes.
Convenhamos: quem reserva das 14h00 às 18h00 de um sábado para aprender um livro da Bíblia de fato quer aprender. Ausente aqui a sensação provocativa da pergunta do jovenzinho, e agora eu não poderia desconsiderar a pergunta com aquele meu olhar blasé.
Expliquei como pude, não estava preparado para a avidez dos alunos em relação ao tema. Precisei fazer uma votação entre os que desejavam que eu ensinasse 1Samuel até o fim e os que desejavam deixar o livro para lá e que nos concentrássemos na questão do arrependimento. Vitória esmagadora dos que queriam arrependimento.
Respondi, mas não fiquei satisfeito. Dois meses depois, quando tive a oportunidade, usei mais três horas e meia de aula só para falar sobre um Deus que se arrepende. Procurei meus mestres, abri todos os livros e softwares de que dispunha, consultei todos os manuais de línguas originais em que consegui colocar a mão, queimei minhas já ralas pestanas, e saí com uma resposta que me parece satisfatória.
Sim, Deus se arrepende. E mais: isso é uma boa notícia.
Dou de graça aquilo que muito me custou.
Não é bem um segredo, já que a revelação do assunto está às claras, acessível a todos.
Encontrei-a no óbvio, não nas tecnicidades tóxicas da teologia.
Nosso problema está mais para português e interpretação de texto do que para teologia e línguas originais.
Pronto, disse.
Deus se arrepende? Sim.
Deus se arrepende? Não.
Como assim? Depende.
Depende do quê? Do significado do verbo "arrepender-se" dentro do contexto no qual foi usado. Oras...
Viu? É português, compreensão de texto.
Errou neste ponto, errou no resto.
Diante da pergunta "Deus se arrepende?", em vez de despirocar e ficar com medo de o mundo mergulhar num caos indiferenciado, gaste um pouco de encefalocalorias para fazer a pergunta óbvia.
Inteligência não lhe falta. Talvez ainda que um pouco só de boa vontade.
"Causa-me espécie que você tenha comprado esta espécie desta espécie de gente, ainda por cima pagando em espécie".
O português – todas as línguas, na verdade – tem dessas: palavras e verbos que significam muitas coisas ao mesmo tempo. Isso é informação de domínio público.
Não encontrei dificuldades em montar uma frase na qual a palavra "espécie" assume quatro significados diferentes sem que eles se confundam. Se você não entendeu tudo de primeira, seu problema não é teológico nem intelectual, mas sim falta de vocabulário.
Começo de um excurso
Vai ler, cidadão! Ou mude seus interesses para assuntos que caibam no vocabulário que você já tem, e pare de chorumelas. Sites e revistas de fofocas existem em abundância.
Já fazia tempo que eu queria dizer isso.
Pronto, disse.
Fim do excurso
Reescrevo: "Fiquei chocado de ver que você comprou ilegalmente uma arara deste tipo de traficante de animais silvestres, e que ainda por cima pagou em dinheiro!".
Dúvidas?
Então, eu me pergunto: se é tão fácil dinstinguir quatro significados da mesma palavra numa frase, por que a gente amolece a perna e afrouxa o joelho diante da pergunta "Deus se arrepende?".
Comece com o hábito de se perguntar "Mas o que o verbo ‘arrepender-se’ significa neste contexto?", e você terá encontrado a mesma iluminação que eu.
Não faça a sã teologia ficar refém da preguiça interpretativa, da falta dos bons costumes hermenêuticos.
Essa responsabilidade é sua. Não terceirize seu cérebro teológico (ou pare de reclamar do lixo orgânico que jogam lá dentro com sua permissão de omissão).
Pronto, disse.
Ou, obrigo-me a perguntar: Que espécie de cristão é você?
Causa-me espécie que nós caiamos nesta espécie de equívoco nesta espécie tão importante de assunto. No tocante às dificuldades teológicas, cuide antes dos bons hábitos hermenêuticos, como se carregasse dinheiro em espécie.
Parece que sofremos de arrependimento de uma nota só, uma espécie de paranoia com a palavra grega metanóia. É assim: se usamos a palavra "arrependimento", o único significado possível é de arrependimento dos pecados. Quando dizemos nos círculos cristãos "Fulano se arrependeu", queremos dizer que "Fulano reconhece que é pecador, confessa sua pecaminosidade, quer mudar de vida e ser salvo da danação eterna". É o arrependimento dos pecados para a salvação.
Tudo bem, a palavra "arrependimento" tem este sentido muito bem definido nos escritos bíblicos. É o principal sentido da palavra grega metanóia, tão usada no Novo Testamento. Mas é o único sentido possível? Não, claro que não. Arrependimento também pode ter sobretons de remorso, de sensação ruim por uma esperança frustrada.
Eu, por exemplo, me arrependo de não ter escolhido bem as editoras que publicaram meus dois livros. A primeira tinha excelentes condições de divulgar meu livro sobre o profeta Jeremias, que inclusive ganhou um prêmio. Mas o desinteresse pela obra que ela mesmo publicou foi inexplicável. Já o segundo foi parar na mão de uma editora iniciante que não teve fôlego nem disposição para quase nada. Acabou falindo com pelo menos 1.500 exemplares estocados. Nem para peso de papel vão servir.
Eu me arrependo de ter assinado contrato com estas editoras, mas eu não pequei. Inexperiência e muita vontade de virar escritor de verdade me levaram a duas escolhas erradas, uma atrás da outra, mas não existe pecado nisso.
Quando digo "Eu me arrependo de ter fechado contrato com estas editoras", quero dizer "Foi uma pena eu ter escolhido duas editoras que não atenderam minhas expectativas, e agora miquei com dois livros mal divulgados". Será que um dia terei novas chances? Vai saber...
Pensando assim, será que você conseguiria imaginar Deus se arrependendo sem que isso ameaçasse sua soberania e perfeição? Sim, claro. Não é difícil. Deus certamente teve este tipo de arrependimento quando nos deu liberdade de escolha e viveu para ver as escolhas que fizemos:
Então o Senhor arrependeu-se de ter feito o homem sobre a terra, e isso cortou-lhe o coração. (Gênesis 6:6)
Esta é uma passagem intragável para quem se aferra ao sentido de arrependimento como reconhecimento de pecado ou de erro. Se usarmos este sentido na passagem, a coisa simplesmente não fecha para quem, como eu, acredita que Deus é perfeito e que, portanto, não tem erros a reconhecer. Mas o outro sentido "faz muito mais sentido": Deus tinha planos maravilhosos para o ser humano, e cortou-lhe o coração quando percebeu que "a perversidade do homem tinha aumentado na terra e que toda inclinação dos pensamentos do seu coração era sempre e somente para o mal" (Gênesis 6:5). Então, o mais fácil e sensato é entender que, nesta e noutras passagens, "Deus se arrependeu" quer simplesmente dizer "Deus tinha a melhor das expectativas quanto aos seres humanos, mas estes preferiram a perversidade e rasgaram de tristeza o coração dele".
Não tem segredo, basta você ter em mente regras básicas de interpretação de texto e abrir a mente para procurar entender antes de reagir impensadamente. Muitos de nós precisarão jogar fora todo o lixo fundamentalista que aprisiona o cérebro e embota a alma.
Sentir-se perturbado com a ideia de que Deus pode se arrepender é uma das sensações mais incômodas da vida cristã. Esta é a minha experiência, pelo menos. Por mais que eu saiba na minha mente que o verbo arrepender-se tem diversos significados diversos, a mesma mente ficou viciada no medo irracional de que um Deus que se arrepende é um Deus que perdeu o controle das coisas. E esse, meus queridos, é um medo que muita gente grande tem.
Há pelo menos duas maneiras de lidar com este medo. Por um lado, posso adotar a postura da criatura que não tem o direito de questionar seu Criador, enfiando a cabeça num buraco cavado às pressas no chão. Quem adota esta postura adota junto uma postura de superioridade espiritual: "eu não preciso de todas as respostas para adorar Deus em sua perfeição... coitados dos que exigem explicações..." Por outro lado, é possível adotar a postura de indignação contra a facilidade que nós crentes mostramos na hora de usar o cérebro que Deus nos deu. Será que a única solução para este tipo de dificuldade, especialmente estas que chegam ao âmago da experiência cristã, é guardar tudo na gaveta das coisas que são inalcançáveis para nós?
Escolhi a segunda opção. Vou insistir e tentar entender, gastar tudo o que tiver e o que conseguir reunir lendo e ouvindo outros, para só então, caso falhe fragorosamente, relegar minha finitude ao mistério da infinitude divina e me recolher á minha insignificância. Mas...
...mas, enquanto sobrar um único sopro de esforço disponível, eu o usarei. Fui, tenho sido plenamente recompensado com essa atitude menos espiritual, recompensado com a descoberta de que a Bíblia é um livro magnífico, mais colorido e intenso do que já tinha percebido antes. Se tivesse relegado tudo à inalcançável dimensão espiritual, já não seria mais cristão. Por assim dizer, minha cabeça-dura me fez engatar a quinta quando muitos me aconselhavam frear e engatar um conveniente ponto morto.
Este meu pequeno libelo contra uma falsa superioridade espiritual é mais do que uma vontade recorrente que tenho de detonar fundamentalismos cheios de orgulho espiritual injustificado. É um convite ao aprofundamento da compreensão que me salvou do limbo.
Sim, Deus se arrepende, e sim, tem gente que se mete a dizer que Deus não se arrepende. Isso já é um problemão quando tais seres humanos são fundamentalistas mais afeitos ao controle do que às verdades bíblicas. Já não tenho problema com estes, que já foram limados da minha vida faz muito. Tenho problema sim quando o homem a dizer que Deus não se arrepende, logo depois de ouvir diretamente de Deus que este se arrependeu, foi exatamente Samuel, o profeta, meu queridinho, homem que infunde em mim mais temor, respeito e admiração em mim do que o próprio Moisés.
Se procurarmos com inteligência e teimosia santa, encontraremos na experiência de Samuel inspirações salvadoras. Tem ouro aí.
Samuel inspira em mim temor, respeito e admiração. Profeta, vidente e último juiz sobre Israel, nem Moisés me impressiona tanto. Quando um homem assim afirma que Deus não se arrepende, eu tremo. Quando um homem assim afirma que Deus não se arrepende logo depois de ter ouvido diretamente do próprio Deus que este tinha se arrependido, minha tremedeira aumenta. Assim desequilibrado, instintivamente começo a moer e remoer este bagaço até que dele saia algum caldo. E saiu, caldo do bom. Mas antes você precisa me seguir em minhas remoenças.
Samuel representa um ponto de inflexão na história. Quando ele ainda menino entrou em cena, Israel já estava um bom tempo sem ouvir Deus diretamente por meio dos profetas. Sua estreia foi a profecia de que a família de Eli, seu mestre e principal dos sacerdotes, seria exemplarmente castigada. E, para fazer o menino dizer isso, Eli o ameaçou com duros castigos divinos. Na primeira vez que Samuel ouviu a voz de Deus ele era menino, ouviu uma mensagem de morte e destruição, e foi forçado por seu mestre a contar sua visão com castigos divinos. Vai vendo...
Samuel foi o último dos juízes de Israel, e foi responsável pela transição deste desastroso período para a monarquia. O período dos juízes foi um período de lideranças fracas, com períodos esparsos de estabilidade e progresso. Ele entregaria a condução de Israel a Saul, o primeiro rei, mas continuaria exercendo suas funções sacerdotais. Não deve ter sido fácil para Samuel, apesar de sua obediência sem máculas. Afinal, Deus sentiu a necessidade de avisar Samuel que o povo não o estava rejeitando como líder, e sim rejeitando ao próprio Deus. Daí se depreende o tamanho da reponsabilidade que Samuel sentia em relação ao povo de Israel. Corretamente ou não, ele sentiu-se traído com esta história de rei. E foi impecável nas suas funções sacerdotais.
A trajetória de Saul como rei não é lá grande coisa, embora tivesse sido um grande líder militar. Dois eventos foram cruciais para a descambada geral de seu desempenho real. No primeiro, ele deveria esperar Samuel chegar para oficiar os sacrifícios antes de uma batalha contra os filisteus. Notando que Samuel demorava e que o moral dos soldados diminuía com a demora, ele mesmo oficiou a cerimônia. Assim que terminou de oferecer os sacrifícios sem ter autoridade para isso, Samuel virou a esquina, viu a cena e lhe passou uma carraspana exemplar: "Agiste loucamente". No segundo acontecimento, Saul recebe a ordem explícita de eliminar todos os amalequitas que tinham sido conquistados em batalha: humanos e animais igualmente. Com dó de matar aqueles belos animais, Saul os poupa com a desculpa esfarrapada de "Guardei-os para oferecer em sacrifício para o Senhor". Sem piscar, Samuel diz que Deus queria obediência e não sacrifício: se Saul quisesse agradar a Deus, que o obedecesse eliminando os animais.
Então, você já deve estar entendendo meus motivos para sentir temor diante de um homem desses.
Estes dois eventos foram fatais para o reinado de Saul. Quando Saul ofereceu sacrifícios sem estar habilitado para tanto, Samuel lhe disse "O Senhor teria confirmado o teu reino sobre Israel para sempre; porém agora o teu reino não subsistirá". No evento em que os animais dos amalequitas foram poupados, Samuel lhe disse "Não voltarei contigo; porque rejeitaste a palavra do Senhor, ele te rejeitou como rei de Israel... Hoje o Senhor rasgou de ti o reino de Israel e o deu ao teu próximo, que é melhor do que tu".
Depois destes dois eventos "o Espírito do Senhor se retirou de Saul, e um espírito mau da parte do Senhor o atormentava". Para livrá-lo deste espírito mau, chamaram Davi e sua harpa. A certa altura Davi se oferece para lutar com Golias e o vence, criando para si uma merecida aura de herói. E Davi entra em diversas batalhas, alcançando tal êxito que as mulheres começaram a cantar "Saul matou mil, mas Davi matou dez mil". Daí em diante a alma de Saul ficou tão envenenada contra Davi que sequer o chamava pelo nome, preferindo chama-lo "aquele filho de Jessé". Davi só pôde ter uns instantes de sossego da perseguição assassina de Saul quando migrou para território filisteu – filisteu! – para salvar a pele.
Esta situação em que Samuel transmite para Saul a notícia que Deus já tinha tirado de sua mão o reino é a situação em que Samuel simplesmente não consegue acreditar nas palavras de Deus, quando disse "Arrependo-me de ter posto Saul como rei, pois deixou de me seguir e não executou as minhas palavras". Qual foi a reação do grande Samuel, meu queridinho, homem que infunde em mim temor, respeito e admiração? "Então Samuel ficou indignado e clamou ao Senhor a noite toda".
Este é o Samuel que precisamos observar mais de perto, na tentativa de encontrar na alma dele movimentos de indignação e angústia semelhantes aos movimentos que existem em nossa alma.
É fácil caracterizar a crise de Samuel.
Primeiro ele ouve Deus dizendo "Arrependo-me de ter posto Saul como rei, pois deixou de me seguir e não executou as minhas palavras", refererindo-se ao fato de Saul ter poupado os animas dos amalequitas.
Depois ele reage violentamente a esta afirmação: "Então Samuel ficou indignado e clamou ao Senhor a noite toda".
Então ele vai a campo para confrontar Saul, informa ao rei que ele já não tem o favor divino: "Hoje o Senhor rasgou de ti o reino de Israel e o deu ao teu próximo, que é melhor do que tu".
Não satisfeito com esta frase determinante, ele acrescenta: "Além disso, o Glorioso de Israel não mente nem se arrepende, pois não é homem para que se arrependa".
E, por fim, somos informados que "Samuel nunca mais viu Saul até o dia da sua morte, mas teve pena de Saul. E o Senhor se arrependeu de ter colocado Saul como rei sobre Israel".
No primeiro movimento, Samuel fica indignado com o arrependimento divino. No segundo, ele passa a noite em claro brigando com Deus. No terceiro, ele comunica a rejeição divina a Saul de maneira exemplar, mas dá um jeito de dizer que Deus não se arrepende. No quarto movimento, ficamos sabendo que, de fato, Deus tinha se arrependido de colocar Saul como rei sobre Israel e que Samuel ainda nutria afeição pelo ainda rei. Tudo muito humano.
O grande Samuel tremeu, é minha única saída interpretativa. Nem ele, acostumado havia décadas à intimidade com Deus, engoliu pacificamente esta história de Deus se arrependendo. A reação de passar a noite em claro clamando a Deus é um sinal seguro de que ele fez a equivalência entre arrependimento e erro divino. Deus não pode errar, pode? Não. Mas ele pode sentir uma tristeza imensa de ver um plano seu indo para o buraco por causa da dureza de um súdito, certo? Certo? Então, para salvar a infalibilidade de Deus, Saul não poderia ter sido uma escolha errada. E Samuel tremeu diante da possibilidade de Deus ter pensado "Ih, acho que não escolhi direito o rei do meu povo. Vou ter que fazer um remendo". Eu teria tremido.
Mas não há motivo para alardes. Como disse antes, é bom cuidar da interpretação do texto antes de sair tirando conclusões apressadas. Também em hebraico, a língua na qual este texto foi originalmente escrito, os verbos traduzidos por "arrependimento" têm dois significados: o de profunda tristeza ou remorso pelo ocorrido, ou reconhecimento de erro. Assim, na minha opinião, Deus estava dizendo para Samuel "Nossa, que tristeza é ver esse Saul dando estas mancadas", e Samuel ouviu "Nossa, Samuel, eu errei colocando esse tal de Saul para ser rei... e agora? Será que o universo vai descompensar?" Numa reação compreensível, Samuel mostra seu conflito na divergência entre o que fez e o que disse: ele obedece a Deus integralmente condenando Saul, mas precisa afirmar em voz alta que Deus não se arrepende, que ele não erra e que, portanto, não precisa voltar atrás. E tudo para ser informado novamente de que Deus tinha mesmo se arrependido com a história de Saul.
Sinto-me inspirando por este coxear de Samuel entre interpretações díspares para o arrependimento. Se o grande Samuel tremeu, então eu posso tremer sem sentir vergonha da minha tremedeira. E, se Samuel obedeceu na tremedeira, vejo que o entendimento completo da situação não é prerrequisito para fazer o que é certo. E, por fim, se Deus não chamou a atenção de Samuel por este deslize, eu também não sofrerei as sanções divinas. É um alívio.
O desafio agora é outro, a saber, o de aprender a conviver com um Deus que reputamos perfeito, mas que escolhe um rei que ele mesmo rejeita, para então colocar outro e seguir a vida, e tudo isso sem considerar-se falho. Vejo numerosos exemplos bíblicos de Deus se entristecendo por não conseguir levar sua parceira com os humanos ao nível que sempre desejou, mas nunca vejo esse Deus socando a mesa com um misto de raiva e frustração enquanto diz "Nossa, errei de novo!" Ele, o grande Rei, não se abala como Samuel se abalou.
Creio que a saída para nosso convívio pacífico com o arrependimento divino é o protagonismo humano. E é para lá que vamos.
Acredito que um exame cuidadoso das fontes bíblicas indicará que a propensão mais debilitadora do homem não é seu orgulho. Não é sua tentativa de ser mais do que homem. É, antes, a sua preguiça, a sua pouca disposição para ser tudo aquilo que o homem foi destinado a ser. Seu descoramento moral apenas em parte resulta da relutância em arrepender-se do mal que praticou no passado. Resulta ainda mais da relutância em assumir responsabilidade pelo que fará no futuro.
Harvey Cox
Que a serpente não decida por nós, p. 3
Aí está escrito o que eu gostaria de dizer.
Disse que Deus sim se arrepende, mas o arrependimento da dor no coração de ver seus humanos se comportando como bichos, ou sendo menos do que poderiam ser. Por algum motivo de mistério, Deus usou sua soberania absoluta para entrar em aliança conosco e deixar parte de seus planos em nossa mão. Receita de decepção certa. Mas ele segue firme com esta opção.
Esta é a boa notícia: Deus vê com bons olhos o nosso protagonismo. Nós podemos olhar para o mundo que nos rodeia, fazer uma avaliação, examinar nossos desejos e esperanças, e traçar rumos para nossa vida, sem que nada disso signifique rebeldia contra esse vapor evasivo que chamamos de vontade de Deus. Saul evadiu-se da responsabilidade, Davi naturalmente a assumiu. É Davi que sobrevive como exemplo a ser seguido.
A vontade de Deus existe, claro, mas ela é bem menos definida do que costumamos imaginar. Há momentos na vida cristã em que esta vontade é clara, cristalina, fácil de captar, mas são momentos raros. Normalmente somos deixados numa generalidade que nos angustia, pois não sabemos ocupar o amplo espaço que nos foi entregue. Quando erramos nas questões morais, normalmente é porque relutamos em aceitar nossa responsabilidade pelo futuro.
Quero dar três exemplos pessoais.
Creio que sempre tive talento para escrever. As pessoas gostam das coisas que escrevo desde bastante tempo. Uma pessoa com talento pode fazer mais do que seus pares que carecem deste talento, mas ela não vai longe se comparada com aquilo pode fazer caso se dê ao trabalho de burilar este talento. Eu decidi que iria assumir uma disciplina de escrita para que o talento que recebi fosse aperfeiçoado. Com este blog, já completo 4,5 anos escrevendo em média um texto por semana. Minha escrita já melhorou muito neste tempo. Na minha avaliação, já passou por dois grandes saltos qualitativos. E eu não quero parar por aqui. Sigo na ânsia de escrever, escrever e escrever para escrever cada vez melhor. Nunca consultei Deus para saber se esta era a vontade dele. Pareceu-me o caminho mais sensato a seguir se quisesse dar um lustro às minhas letras.
As pessoas costumam me procurar quando precisam conversar sobre assuntos difíceis e, por algum motivo que me escapa, tendem a abrir lugares de sua alma onde habitam a vergonha e a maldade. Elas pedem ajuda, e eu as ajudo. Não que me sentisse especialmente dotado para a tarefa, nem que tivesse recebido um comissionamento divino para tanto. Não. Simplesmente as pessoas me procuram, eu converso com elas, e o resultado na maioria das vezes é que as pessoas melhoram. Eu nunca perguntei para Deus se era da vontade dele que eu aconselhasse as pessoas na igreja ou fora dela. Isso simplesmente aconteceu. Eu entendi o padrão, e segui feliz nessa direção, mantendo-me como uma opção para as pessoas com dores de alma.
Por fim, aprendi logo que as pessoas gostam de aprender da Bíblia comigo. Por algum motivo que me escapa, eu falo das coisas que enchem meus olhos e as pessoas prestam atenção. Às vezes ouço "Lembro até hoje daquela aula, cinco anos atrás". Não, Deus nunca me disse que eu deveria ser "varão poderoso na Palavra". Não. Bem ao contrário. Quando comecei a identificar os tesouros escondidos na minha Bíblia, fiquei tão empolgado que orei pedindo forças e inteligência para compreender mais e mais, e assim ter condições de ensinar de maneira cada vez mais eficiente e relevante. Sim, recebi confirmações em momentos de dúvidas, mas as confirmações só vieram depois que já estava na estrada fazia muito. Tivesse esperado Deus para começar a ensinar a Bíblia, estaria esperando até hoje.
O belo disso tudo é que minhas percepções, da quais Deus não participou com milagre nem com sinais, se confirmaram à perfeição. Depois de estudar um Deus que se arrepende, fiquei feliz da vida ao perceber que nosso protagonismo honra a Deus em vez de diminuir sua importância no esquema geral das coisas. Desde o dia em que comecei a me responsabilizar pelo futuro da minha e de como influencio as pessoas para o bem, nunca perdi uma noite com esta etérea e disforme "vontade de Deus".
Deus tem a história nas mãos, e a levará até o ponto em que ela será perfeitamente restaurada. As lágrimas serão enxugadas e a morte não mais existirá. Neste plano geral existem inúmeros espaços que Deus deixa abertos para que nós os ocupemos responsavelmente. E é aí que encontraremos nossa relevância.
Se Deus entregou este mundo para que nós cuidássemos dele, nada menos do que isso o alegrará, nada menos do que isso nos realizará. Vençamos a preguiça, assumamos a responsabilidade pelo futuro.
Amém. - http://blogdomarson.zip.net/cristianismo/

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